Alexandra do Carmo. Emancipação e resistência: hortas suburbanas, espontâneas e “clandestinas”
Sem Título (série de desenhos para o Documento #2 – Ocupa)
Partindo do desejo de libertar o cinema do seu aparato físico presente em André Bazin e em Sergei Eisenstein, Alexandra do Carmo leva acabo uma “desmaterialização” do filme, transpondo a sua linguagem – as prerrogativas específicas que uma ontologia do média define –, para o suporte do desenho. Aqui o recurso a esta “velha” forma de expressão poderia muito bem ser vista como ferramenta útil de edição, à imagem do storyboard, usado como forma de “pré-visualizar um filme”. Mas trata-se precisamente do inverso. Em Alexandra do Carmo é o filme acabado que se converte em matéria que o desenho vai “remontar” e “(re)interpretar” no atelier.
Ecrã e desenho fundem-se enquanto pensamento. Nesse sentido, enquanto reveladores do próprio processo de montagem, os desenhos são “ecos” dos filmes que a artista vem produzindo. Como “frames” rarefeitos tirados de um contexto mais lato, neles vemos rostos com olhos vazios para que o espectador lá veja a possibilidade de um filme imaginado. Incorporando os princípios de edição do cinema mudo, diferentes personagens entram e saem de cena a fim de estabelecer diálogos sincrónicos com uma legenda que invariavelmente reproduz fragmentos de um storytelling que o trabalho videográfico registou enquanto “trabalho de campo”. Mas por oposição ao registo acelerado do cinemático – enquanto fluxo contínuo e imparável –, nestes desenhos Alexandra do Carmo pretende traduzir um tempo outro do fazer e do ver, que implica uma “digestão” auto-reflexiva e demorada desses mesmos conteúdos, homóloga à diferença que existe entre o tempo rápido do trânsito da cidade e o tempo lento da horta.
Documento #1 – O Alelier Verde no IC19, Documento #2 – Ocupa, Documento #3 – Feijão Colonial
Nos três filmes que apresenta, Alexandra do Carmo aborda a dimensão social e política das hortas clandestinas que povoam as margens do IC19 - Radial de Sintra,construídas com perseverança e resiliência por agricultores urbanos, maioritariamente africanos oriundos das antigas colónias portuguesas ou por gentes locais com passados ligados às antigas comunidades rurais. Mas enquanto Gustave Courbet – a quem ela faz alusão através da descrição daquela que será a mais ambiciosa obra do pintor francês, L’Atelier du peintre, allégorie réelle déterminant une phase de sept années de ma vie artistique, 1855 –, ainda dentro do paradigma da representação traz metaforicamente para dentro do espaço de criação tanto o meio social como todos aqueles que o influenciaram na sua “acção”, Alexandra do Carmo instala literalmente o seu atelier no meio das pessoas que fortuitamente encontra nos interstícios do mundo suburbano; põe-se entre aqueles que estão à “margem” para ouvir a sua voz.
A proliferação de hortas urbanas espontâneas configura, sem dúvida, uma prática que vem se enraizando e difundido como alternativa alimentar, mas também se afirma cada vez mais enquanto forma de vida, criando novos modos de interacção social. Podendo reclamar a reinvenção do quotidiano com uma maior consciência ecológica, o fenómeno contemporâneo das hortas sai definitivamente da esfera estrita do doméstico e da liberdade individual, convertendo-se num objecto decisivo para o debate sobre a transformação do espaço da polis – da cidade enquanto “coisa pública” –, modificando modos de vida comum e viabilizando alternativas ao paradigma, hoje em profunda crise, afecto à lógica tardo-capitalista, promotora da privatização/especulação selvagem do território, da hiperindustrialização da paisagem urbana e do consumo desenfreado.
Os vários relatos que se sucedem sobre os danos físicos e psicológicos que resultam da destruição das suas hortas denunciam as incongruências do sistema: a polícia assume que não pode proibir a prática da agricultura, ainda assim leva a cabo consecutivas operações de “limpeza” por ordem camarária. Em boa verdade, o Plano Director Municipal de Lisboa permite a ocupação de terrenos para a prática do cultivo. Mas a inexistência de leis específicas adequadas a cada caso, somada à permissibilidade tanto aparente como aleatória das autoridades locais, conduz a uma situação de regulação cega, autocrática e violenta.
E eis que se constrói o inevitável argumentário a favor do “marginal” e do “subalterno”, contra a discriminação económica, a segregação territorial e as demais formas de dominação típicas do colonialismo cooperativo contemporâneo.
Ao invés de colhermos os seus benefícios no nosso tempo presente, as hortas clandestinas continuam a não ser mais do que pequenos hiatos, fruto de décadas de um planeamento do território incapaz de atender aos espaços exteriores da cidade. Temporárias, vivem no limbo da urbanização adiada. São toleradas enquanto não se encontra para as mesmas uma solução “urbanística”. Ao invés de espaços assumidos como uma mais-valia comum e permanente, não passam de “não-lugares” à espera de uma decisão política autárquica, não raras vezes concretizada pela edificação das grandes superfícies comerciais, de que o hipermercado Continente é o símbolo mais imponente.
As hortas estão ali, mas ninguém olha para elas com olhos de ver. Uns ignoram-nas; outros preferem vê-las como simples lixo análogo à condição das “barracas” ou formas de habitação precária, invariavelmente tidas como focos de problemas sociais, de criminalidade e de violência.
Estas hortas suburbanas, à beira da estrada, são hortas sem lei. Mas resistem à hostilidade da rua, da polícia e do poder autárquico.
Enquanto denúncia da estrita associação entre actos de negação do “outro” e formas colonialistas ocidentais, Alexandra do Carmo rompe com o estado de “invisibilidade” da horta clandestina suburbana. Mostra que estas, enquanto fenómeno político espontâneo e postura de acção sobre e no ambiente, constituem verdadeiros espaços heterotópicos de micro-resistência e de emancipação pós-colonial, face a uma endémica segregação resultante da ditadura da propriedade e do capital. Daí que a artista proponha uma contra-visibilidade como forma de promover um olhar mútuo e interessado sobre o outro, neste caso, sobre o cidadão “precário”, marginal e subalternizado; gesto que permite abrir a possibilidade de o integrar numa mesma comunidade imaginada de que tanto Eu como Ele fazemos parte de pleno direito.
Bruno Marques, Outubro de 2018
Alexandra do Carmo vive e trabalha em Lisboa, frequenta o doutoramento em Estudos Artísticos na Universidade Nova de Lisboa FSCH, estudou no Whitney Museum Independent Study Program, e no Pratt Institute em Nova Iorque e no ar.co em Lisboa. Projectos mais relevantes: Studio Socialis 2014, na galeria Carlos Carvalho (GCC), Tudo foi captado (mesmo os movimentos do cabrito), 2011, na galeria Quadrum, Lisboa, Office/Commercial 2008 GCC; A Willow (Or without Godot), 2006, no Irish Museum of Modern Art. A sua prática artística centra-se no ateliêr como campo conceptual de estudo; um filtro através do qual e com o qual investiga a interdependência entre a artista e o espaço público, revelando as dinâmicas, condições e limites da autoria.
Bruno Marques é investigador Bolseiro FCT em Pós-doutoramento no Instituto de História da Arte da Universidade Nova de Lisboa, onde coordena o cluster Photography and Film Studies. Leccionou, como Professor Auxiliar Convidado, no Departamento de História da arte da Universidade NOVA de Lisboa (2016-2017), no ISCE (2010-2015) e na ESAD.CR (2014). Comissariou várias exposições, tendo sido vencedor da Iniciativa Novos Comissários 2008. É autor do livro Mulheres do Século XVIII. Os Retratos (2006). Coordenou os livros Sobre Julião Sarmento (Quetzal, 2012) e Arte & Erotismo (EAC/IHA-UNL, 2012, com Margarida Acciaiuoli). Entre 2017 e 2018 coordenou a linha de investigação “Retóricas do Corpo” no âmbito do Projecto FCT “Fotografia Impressa. Imagem e Propaganda em Portugal (1934-1974)” [PTDC/CPC-HAT/4533/2014]. Co-organizou o congresso internacional Arte & Erotismo (FCSH-UNL, 2012), as jornadas Envelhecimento, Espaços Culturais e Arte Contemporânea (Culturgest, 2016 e 2017) e o simpósio Performance arte portuguesa – 2 ciclos (sem) 1 arquivo: diferentes valores, razões e práticas? (Museu Colecção Berardo, 2016).
Alexandra do Carmo. Emancipation and resistance: suburban allotments, spontaneous and “clandestine”
Untitled (drawing series for Document #2 – Occupy)
Starting off with the wish to liberate cinema from its physical apparatus, present in André Bazin and in Sergei Eisenstein, Alexandra do Carmo puts through a “dematerialisation” of film (dematerializes film), transposing its language - the specific prerogatives defined by the medium’s ontology - to drawing. Availing oneself of such an “old” form of expression could herein very well be taken as resorting to a useful editing tool, akin to a storyboard, utilised as means to means to foresee a film. However, the opposite takes place. In Alexandra do Carmo’s work, the finished film finds itself converted into matter redrawn, reassembled and reinterpreted in the studio.
Screen and drawing fuse as thought and, in this sense, whilst revealing the very editing process, the drawings act as though they were “echoes” of the films the artist has been producing. In somewhat like dispersed “frames” taken out of a broader context, empty-eyed faces are to be found so that the viewer there sees the possibility of an imagined film. Incorporating the rudiments of silent film editing, different characters come on and off screen, so to establish dialogues, synchronised with subtitles, which invariably reproduces fragments of storytelling that the videographic work captured as “fieldwork”. Yet opposing the accelerated cinematic registry of an unstoppable and continuous flux, Alexandra do Carmo´s drawings aim to translate a slower time of making and seeing. Her work implies an auto-reflexive and slow “interpretation” of particular contents, homologous to the difference between a city’s fast pace and a much slower tempo of an allotment.
Document #1 – The Green Studio at IC19, Document #2 – Occupy, Document #3 – Colonial Bean
In the three films shown, Alexandra do Carmo´s examines the sociopolitical dimensions of the clandestine allotments populating the margins of the IC19 - Radial de Sintra, built with much perseverance and resilience by urban farmers, mostly africans from the Portuguese ex-colonies, or by local folks who are historically connected to old rural communities. But whilst Gustave Courbet - whom she pays reference to through describing that which became the French painter’s most ambitious work, L’Atelier du peintre, allégorie réelle déterminant une phase de sept années de ma vie artistique, 1855 -, still placed within a representation paradigm, metaphorically brings into the creation space both the social environment and all those who influenced him in his “action”, Alexandra do Carmo literally installs her own studio amidst people she fortuitously finds within the interstices of a suburban world; standing amongst those most to the “margins” so to have their voices heard.
The widespread of spontaneous urban allotments doubtlessly configures a practice, which has been both ingraining itself and becoming a bespoke alternative to food production, whilst it simultaneously creates new forms of social interaction as it further affirms itself as a lifestyle. Conceivably claiming the reinvention of the everyday, thenceforward with a considerably wider ecological consciousness, the contemporary phenomenon of urban allotments definitely parts from the strictly defined domestic fields as well as from those to do with individual freedoms, thus becoming a decisive object, core to debates on the transformation of the polis - the city as “public matter”. It modifies common life styles and deeming viable alternatives other to the paradigm (presently at profound crisis), tightly connected to the late-capitalist dispositif; promoter of savage privatisation and speculation of territory, of hyper-industrialisation, of urban landscape development and of unrestrained consumption.
The various succeeding reports on the physical and psychological damages resulting from the destruction of people’s plots denounce systematic incongruences: the police assumes their inability to prohibit agricultural practice, even though consecutive “cleansing” operations on behalf of city councils have been taken ahead. As a matter of fact, the Lisbon’s Municipal Masterplan allows the occupation of territory for cultivation, however, the absence of specific laws adequate to the present case, further engrossed by the seemingly permissible yet aleatoric stance local authorities hold, brings the whole situation to a blind, autocratic and violent regulation. And so, there emerges the inevitable argument favouring the “marginal” and the “subaltern”, against economic discrimination, territorial segregation and all other forms of denomination, typical from contemporary cooperative colonialism.
Instead of collecting the benefits of their existence in our present time, the unauthorised allotments remain no more than feeble hiatuses, sprouting from decades of deficient territorial planning, so far unable to attend to the city’s peripheral spaces. For they are temporary, they live in a limbo of postponed urbanisation, solely tolerated for as long as, against them, an “urbanistic” solution awaits being found. Rather than understood as permanent communal assets, yet no more than “non-places”, these pend from local political decisions, not seldom materialised in the form of enormous commercial structures, which Continente hypermarkets hold a most imposing symbol of. There stand the plots, yet no one takes a proper glance at them. Some ignore them; others prefer to see them as mere rubbish, analogous to the conditions of the “stalls” or of other forms of precarious housing, invariably held central to social problems, criminality and violence. These suburban allotments, the closest by the roadway, being unlawful plots, resist still under hostilities casted by the traffic, the police and the autarchic power.
Enacted as a denouncement of the strict association between negational othering acts and forms of western colonialism, Alexandra do Carmo jilts the suburban allotments’ state of invisibility. She puts forward that, as spontaneous political phenomena but equally as an action-stance towards and within the environment, these constitute true heterotopic spaces of micro-resistance and of postcolonial emancipation, facing an endemic segregation, resultant from the dictatorship of property and capital. Thenceforth the artist proposes counter-visibility as means to promote a mutual and interested gaze upon the other, herein on “precarious” citizens, marginal and undervalued; a gesture which permits opening up the possibility of integrating them in a shared imagined community, which “I” as much as “They” are whole-rightly part of.
Bruno Marques, October 2018
Alexandra do Carmo lives and works in Lisbon, currently doing a PhD in Artistic Studies at Universidade Nova de Lisboa FSCH. Studied at Whitney Museum Independent Study Program, NY; Pratt institute, Brooklyn; ar.co, Lisbon. Exhibited widely in Portugal, United States, Germany, Spain, Ireland. Projects include: Studio Socialis (2014), Carlos Carvalho Gallery (CCG), Lisbon; Everything was captured (even the movements of the goat), 2011, Quadrum Gallery, Lisbon; Office/ Commercial (2008) CCG; A Willow (Or without Godot), 2006, Irish Museum of Modern Art, Dublin. Her practice is focused on the studio as a conceptual field of study—the studio as a lens through which to investigate relations between artist and public, revealing the dynamics, conditions and limits of authorship.
Bruno Marques is a Post-doctoral Fellow at the Institute of Art History, Faculty of Social Sciences and Humanities, Universidade NOVA de Lisboa, Portugal, where he currently coordinates the research group "Photography and Film Studies". Lecturer at FCSH/NOVA (Dept. of History of Art. Team member of the PhD program in Art Studies/FCSH/NOVA. Curated several exhibitions, and was the winner of the New Initiative Curators in 2008. Is the author of Mulheres do Século XVIII. Os Retratos (Women of the Eighteenth Century. The Portraits) (2006). He is coordinator of the books Sobre Julião Sarmento (On Julião Sarmento) (Quetzal, 2012) and Arte & Erotismo (Art & Eroticism) (EAC/IH -UNL, 2012, with Margarida Acciaiuoli). Co-organized the international symposium Arte & Erotismo [Art & Eroticism] (FCSH-UNL, 2012), the conferenceArte.Crítica.Política [Art.Criticism.Politics] (Goethe-Institut, Lisboa / FCSH-UNL, 2014), the conference Envelhecimento, Espaços Culturais e Arte Contemporânea [Aging, Cultural Spaces and Contemporary Art] (Culturgest, 2016), and the international symposium Portuguese Performance Art (Museu Colecção Berardo, 2016).